Estudante apresenta projeto arquitetônico para nova sede da Associação de Surdos

20 de dezembro de 18
1 / 8
2 / 8
3 / 8
4 / 8
5 / 8
6 / 8
7 / 8
8 / 8

Quando Laura Moraes Macedo decidiu cursar Arquitetura e Urbanismo, ela já conhecia bem os desafios da vida sem audição. A convivência com o irmão mais velho e surdo, Leonardo Moraes Macedo, sempre despertou em Laura a vontade de propor mudanças e reafirmar a importância e urgência da inclusão social. Foi no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que a estudante enxergou a oportunidade de propor mudanças e tentar modificar essa realidade. 


“O meu trabalho final de graduação consiste em uma proposta de uma nova sede para a Associação dos Surdos de Uberaba, com o objetivo de promover a inclusão dos surdos na cidade através de uma arquitetura que compreendesse a maneira singular que os surdos percebem e ocupam o espaço”, conta.


O projeto teve início no fim de 2017. Para a construção dele, Laura pesquisou e conheceu ainda mais o mundo da surdez e as barreiras da inclusão social. “Em relação à pesquisa, tive dificuldades pelo fato de não encontrar referências brasileiras, tanto textuais quanto de projeto, no quesito arquitetura e acessibilidade voltada aos deficientes auditivos. Apesar disso, consegui encontrar outros autores que supriram essas necessidades e, no final, consegui atingir o objetivo acima do esperado, tanto em texto, quanto na prática”.


Evitar barreiras visuais, evidenciar acessos da arquitetura, modificar a disposição dos móveis e adotar vidros e espelhos. Laura se inspirou na metodologia do DeafSpace (DSP), do arquiteto Hansel Baumam, que apresenta cinco principais pontos de contato entre as experiências surdas e o ambiente construído: 1- Alcance sensorial, 2 – espaço e proximidade, 3 – mobilidade e proximidade, 4 – luz e cor, 5 – acústica e interferência eletromagnéticas. “O trabalho foi um desafio. A metodologia abordada pela Laura foi uma novidade para mim e, também, para os professores da banca. Isto mostra o quanto estamos distantes da realidade de muitas pessoas e o quanto a divulgação de trabalhos como este podem nos aproximar”, esclarece a orientadora de Laura, professora Mariana Ferreira Martins Garcia, formada em Arquitetura e Urbanismo pela Uniube e mestre pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP.


Para a apresentação, Laura conseguiu contatar uma intérprete para que os surdos pudessem assistir e compreender perfeitamente o assunto. “Foi muito gratificante escutar os elogios da banca avaliadora. Ainda, a nota máxima só me deu mais certeza de que consegui transmitir a mensagem de inclusão social que eu tanto almejava”, completa.


A formanda ressalta as melhorias necessárias na inclusão social de Uberaba. “Através desse projeto, pretendo ampliar a compreensão da importância da inclusão do surdo na sociedade, de forma que compreendam o quanto ações pequenas podem fazer a diferença. Também pretendo divulgar as atividades e as necessidades da Associação de Surdos de Uberaba e, além disso, poder divulgar na minha posição, agora como arquiteta e urbanista, de que é possível fazer um projeto acessível aos surdos, seguindo os conceitos que defendo ao longo trabalho”.


A adaptação de Laura com as experiências familiares no projeto final de graduação, encanta a professora. “O aluno é livre para escolher qual assunto abordar. Mas ela sempre esteve determinada e consciente da importância de falar sobre o tema. Sabia exatamente onde queria chegar e se dedicou muito para apresentar um trabalho fantástico.  A Laura sempre foi uma excelente aluna e não poderíamos esperar outro resultado. Como costumo dizer, há momentos em que você, como professor, percebe que aprende muito mais do que ensina. Este trabalho com a Laura foi um destes”, conclui.


Apoio da família


Para Marília de Dirceu Moraes Macedo, mãe de Laura, a abordagem do trabalho foi uma grande surpresa. Inicialmente, Marília ajudou a filha com as pesquisa e dúvidas sobre o tema e sempre esteve presente para apoiá-la nas horas mais complicadas e agitadas do projeto. “Eu e meu marido nos sentimos muito orgulhosos e emocionados. Foi muito empenho, esforço, dedicação. Poder observar ela se expressando tão bem, com os olhos marejados, olhando o irmão ao lado, atento, observando tudo através da intérprete, foi de encher o coração de alegria! ”, enaltece.


O irmão de Laura é bacharel em Sistemas de Informação. Ele conta que teve muitas dificuldades referentes à inclusão social, mas que com o apoio da família, e religioso, venceu as limitações. “Meus estudos foram complicados, estudei da 5° série ao 3°ano do Ensino Médio sem intérprete em sala de aula, apenas anotando o que o professor escrevia no quadro e, depois, tinha que estudar sozinho pela apostila e anotações. Minha mãe me ajudava nisso. Na graduação melhorou muito o meu aprendizado com intérprete”, compartilha.


Leonardo reforça as melhorias necessárias para os surdos. “Falta mais inclusão no trabalho, os surdos serem mais valorizados. Também, ter intérprete ou profissionais que saibam se comunicar com surdos em todos os lugares, principalmente em hospitais. Também, que as pessoas tenham mais paciência com surdos. Quando queremos falar algo e eles não entendem, ficam bravos e ficamos tristes”. Ele continua elogiando o trabalho da irmã. “Fico orgulhoso pelo trabalho da Laura que luta por melhorar a inclusão. Primeira vez que vejo banca com intérprete e ainda da minha irmã, espero que as pessoas gostem e entendam como é importante para nós! ”.


“A inclusão social é fundamental em todos os parâmetros da nossa sociedade. Em relação aos surdos, torço primeiramente para que Libras seja obrigatório como matéria nas escolas, além da capacitação de professores, profissionais da área da saúde e que possam ter mais intérpretes em bancos, teatro, lanchonetes, comércio, médicos, etc.”, finaliza Marília.