Educação na atualidade: José Pacheco fala em entrevista sobre mudanças na área

01 de outubro de 21
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O educador José Pacheco marcará presença em uma aula magna da Uniube na próxima segunda-feira (04). Fundador da Escola da Ponte, localizada em Portugal, uma referência mundial em pedagogia inovadora, José Pacheco é mestre em Educação da Criança e autor de inúmeros livros e artigos sobre educação. O evento, organizado pelo curso de Pedagogia, terá como tema a Educação na Contemporaneidade: desafios e perspectivas.


Em entrevista, o educador pontua sobre as transformações pelas quais a área passa e o pensamento que tem do âmbito educacional.  


-  Quais são as mudanças mais visíveis na Educação nos últimos meses? O que aprendemos neste tempo de pandemia?


O vírus veio mostrar que escolas não são prédios, que escolas são pessoas. Que não se aprende sozinho, nem em sala de aula. Que aprendemos uns com os outros, criando vínculos, na intersubjetividade.
Temo que pouco, ou mesmo nada, tenhamos aprendido neste tempo de pandemia.


- Como os educadores devem atuar neste novo cenário? Como avalia os novos desafios da Educação?


Os projetos humanos contemporâneos não se coadjuvam com as práticas escolares que ainda temos, carecem de um novo sistema ético e de uma matriz axiológica clara, baseada no saber cuidar e conviver. Exigem que se transforme uma escola obsoleta numa escola que a todos e a cada qual dê oportunidades de ser e de aprender. Urge humanizar a educação, conceber novas construções sociais de aprendizagem, nas quais, efetivamente, se concretize uma educação integral. A educação acontece na convivência, de maneira recíproca entre os que convivem. Se a modernidade tende a remeter-nos para uma ética individualista, nunca será demais falar de convivência e diálogo, enquanto condições de aprendizagem. Será oportuno falar de novas construções sociais. A partir do que somos, do que sabemos e do que sabemos fazer, urge afirmar a possibilidade de conceber "comunidades de aprendizagem".


 - A escola da Ponte é considerada espaço significativo de aprendizagem. Como surgiu a Escola da Ponte?


Nos idos de setenta, eu estava quase a desistir de ser professor. Sentia que, "dando aula", eu estava a excluir gente. Percebi que não devia continuar dando aula, mas eu não sabia fazer mais nada! Só sabia dar aula. A Ponte surgiu, talvez não por acaso, para me dar uma última oportunidade.
Era uma escola como qualquer outra, escola pública degradada, que albergava as chamadas "turmas do lixo", maioritariamente constituídas por jovens de 14, 15 anos, que não sabiam ler nem escrever, e que batiam nos professores. Ali, encontrei duas pessoas, que faziam as mesmas perguntas que eu fazia: "porque eu dou aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?"
Foi, então, que aconteceu algo inusitado. Como quaisquer outros professores, éramos profissionais competentes. Porém, deparávamos com a falta de um compromisso ético com a profissão. Se o modo com a escola funcionava negava a muitos seres humanos o direito à educação, a escola não poderia continuar a ser gerida desse modo. Se o modo como nós trabalhávamos não lograva assegurar a aprendizagem a todos os alunos, nós não poderíamos insistir nesse modo de ensinar. Quando modificamos o modo, asseguramos a todos o direito de ser sábio e feliz. Começamos a receber alunos expulsos de outras escolas, alunos chamados "deficientes", acolhíamos jovens evadidos de outras escolas, enfim!  Todos se transformavam e aprendiam.


- Qual a expectativa com o evento em homenagem aos professores oferecido pela Uniube?


Trata-se de uma iniciativa meritória. É louvável que se cuide da pessoa do professor. É preciso cuidar de educadores, que contribuam para traçar novos rumos para a educação, que a humanizem.


- O que você conhece sobre a educação no Brasil? Inspiradores teóricos brasileiros, limites, avanços?


Apesar da profusão de tentativas de reforma, programas, projetos, congressos, cursos e afins, não se logrou melhorar a qualidade da educação nacional. Mas o Brasil tem tudo aquilo que precisa. Tem excelentes professores e uma plêiade de mestres, como Anísio, Freire, Lauro, Nise, Nilde, Agostinho, Anália, Eurípedes, Darcy e tantos outros. Nos últimos vinte anos, percorri todos os estados do Brasil. No chão das escolas, ajudei educadores a melhorar as suas práticas. No Brasil está a melhor educação do mundo, uma educação do século XXI. Por isso, estou no Brasil: para aprender.